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Unir o útil ao agradável.

O tempo foi passando, no entanto, não posso dizer que fui esquecendo do meu suposto companheiro de atividade. A concorrência parecia estar crescendo por ali. E o pior é que o Cara era burro! Sempre deixava rastros. Ou, pior ainda, podia fazer tudo de propósito. Unir o útil ao agradável, comer bem, sem precisar se preocupar com o fim que levariam os restos ou na falta que dariam da vítima, e ainda sobraria pra mim, pois ele andava caçando na 'minha área'. Eu, pelo menos, depois de um tempo como 'canibal' (ai, é tão estranho usar essa palavra, ela me soa tão 'monstruosa'), sempre tomava os devidos cuidados com o fim que levaria o corpo, etc. Primeiramente, pensei em fazer parecer que o indivíduo havia cometido suicídio, mas isso nem de longe explicaria a falta de certas partes do seu corpo, e eu não matava por prazer, era o meu alimento. Então, sempre envolvia o 'defunto' em acidentes forjados, e não fazia nenhum grande estrago ao que restava dele. Sempre apenas o suficiente para explicar a ausência de algum membro. Mas o idiota não! Ele parecia fazer questão de sumir com alguém, e deixar a vítima desaparecida, sem nenhuma pista de acidente ou algo do tipo. E a polícia já estava caindo em cima, e pra quem iria sobre? Pra mim! Porra! Eu tinha que tomar uma providência.
O tempo não trouxe só isso de complicação. Eu acho que voltei a ser mais humana. Criei consciência de que o que eu fazia não era bom, de jeito nenhum. Nada a ver com religião, nunca concordei que os dogmas salvam alguém, só acho que eu tinha sentimentos humanos o suficiente para concordar que uma pessoa que encurrala, mata, come, e dá um fim inesperado a outras pessoas só pode ser considerada monstruosa. Sem contar com as vidas nas quais eu coloco pontos finais, como se tivesse o direito. E quando falo de vidas, não é só sobre o fato de estarem vivas, e sim, de terem toda uma história, família, lar. Então limitei ainda mais meus critérios de escolha do menu. Procurei, não querendo ser uma 'justiceira' ou algo do tipo, caçar pessoas apenas que faziam constantemente algum mal à sociedade. Que abusavam sexualmente, coisas do tipo. Isso não justificava meu crime, porém era um consolo.
Eu também havia percebido que, não importa o quanto eu achasse que o que eu estava fazendo era relativamente errado e quisesse parar, às noites de lua eu me transformava, não havia como evitar. Ia atrás do alimento como um tubarão desesperado atrás da presa.
Envolta nesse manto de dúvidas, e estranhamente me sentindo interessada pelo homem misterioso que havia me contrariado seriamente naquele dia, resolvi dar algum passo. Montei em minha cabeça algum tipo de armadilha para poder encontrar diretamente com ele, e não com seus rastros, uma segunda vez. Era fácil, era só pensar naturalmente no que ME atrairia com facilidade, ele também era, aparentemente, um canibal, portanto, cheio de fome e necessitado de adrenalina e sangue para se saciar.
Quase de madrugada resolvi passear pelas ruas escuras do 'meu território'. Não havia medo em mim de alguém que pudesse vir a me assaltar ou algo pior, aquela peculiaridade, estranhamente, me fazia ser uma mulher três vezes mais forte do que as outras 'normais'. Eu sabia bem como encurralar alguém, alguém não me faria isso com facilidade. Eu andava apressada, como se o medo me tivesse tomado, para melhorar meu disfarce. Torcia para que ele ainda não tivesse jantado, e estivesse ali, à espreita. Não podia dar várias voltas, seria muito óbvio. Só dava certo passar uma vez; eu passei e ele não apareceu. Repeti o plano pelo menos 10 vezes. Talvez ele soubesse, afinal, para saber onde eu caçava constantemente, ele deve ter me observado bastante. Quem disse que não fazia mais isso? Quem disse que não sabia de tudo antes de eu mesma saber? Quem disse que não havia presenciado tudo e me seguido até em casa sem que eu notasse? Quem disse que ele não podia ser um companheiro de trabalho, um vizinho, um ex-colega de colégio? Mas o que custava arriscar? Eu sempre mudava de território, depois de um tempo. Ele parecia me seguir, as pessoas sempre desapareciam no último lugar onde eu tinha fisgado alguém, e não quem eu pegava. Então, era bem provável que ele soubesse de mim mais do que eu pressupunha. Mas preferi confiar na sorte e continuar tentando; ele podia estar sondando a vítima, achando estranho ela começar a andar por ali do nada, ou vai que ele se interessava mesmo sabendo que era eu. Eu me interessaria.
Certa noite, fiz um plano diferente. Comprei uma passagem de ônibus, e disse para todo mundo que passaria uns dois dias fora. Chamei uma prima que faria aniversário em breve e disse que pagaria para ela um final de semana na cidade vizinha, todavia, ela teria que chegar lá com meus documentos, porque, de acordo com minha mentira, eu também queria descansar do trabalho e ia dizer que iria viajar. Então ela foi no meu lugar, eu me hospedei em um hotel do outro lado da cidade, comprei uma peruca bem comum e me vesti de um jeito diferente do meu. Fui de táxi até o lugar da armadilha e passei por lá mais uma vez. Alguma coisa me dizia que todo aquele investimento valeria a pena. E não é que valeu!
Dei uma volta e nada. Resolvi, pela primeira vez, tentar a segunda, como quem voltava da casa de um amigo que havia saído, decepcionada. Ele surgiu na minha frente, quase me assustei, mas me fingi bem assustada. Nossa!, não lembrava de como ele era bonito. Entendi bem o porquê de eu ter cedido à sua tentação em nosso primeiro e único (até então) encontro, porque carente eu nunca fui.
- Oi bonequinha- que falta de originalidade!, pensei. - O que você anda fazendo uma hora dessas longe da cama? - Novamente, bem clichê.
- Eu não sou um bebê, o que você quer? Deixe-me passar, por favor.
- Até parece! Você, tão linda, passando assim no 'meu território' - fiquei puta da vida, o território era MEU, mas ele não pareceu ter falado aquilo de propósito. - Até parece que eu vou te deixar sair assim. E não me referi à sua cama, meu bem. E sim à cama de seu namorado.
- O que você quer, ein? Dinheiro? Eu dou, mas por favor me deixe ir. - Eu fingia suplicar.
- É, você pelo visto não entende meu negócio. Ah vai, se você me divertir e prometer voltar eu posso até deixar você ir, depois. Mas não venha me enganar, eu posso estar bem atrás de você quando você menos esperar.
- Como assim 'me deixar ir'? Você pretende não me deixar ir hora nenhuma?
- Se você for uma menina má, não deixarei. Ou se for sem graça...
- Por favor, não faça nada comigo. Eu tenho família, amigos, um trabalho, uma vida bem longa e...
- Quem disse? Não somos nós quem decidimos isso, meu bem. A vida não é como um passeio que você decide quando começa e quando termina. Quem vai decidir isso hoje sou eu. Eu realmente me sentiria muito mal se tirasse você desse mundo. Essa vida tão precária de mulheres bonitas como você.
- Você só pensa em sexo? Porra! Eu não sou só um corpo. - Ele pareceu se surpreender comigo; uma vítima à beira da morte, se importando com o valor que o assassino me dava.
- Você não sabe o que eu quero de você. Quem disse que eu quero sexo? Não posso querer a companhia de uma mocinha bonita, apenas? Você vai passar essa noite comigo, será minha coleguinha, -ele riu- depois prometo deixá-la ir. Não vou te morder meu bem. -ele riu de novo, sorriu, um sorriso lindo, sexy, sedutor, provocante- Só se você quiser.
Bom, se eu realmente fosse vítima não tinha escolhas.
- Para onde você vai me levar?
- Calma querida, será um lugar onde teremos bastante privacidade. Eu não vou forçar você a nada, mesmo que você não acredite em mim, mas você não tem opções então irá comigo. Às vezes eu só preciso de alguém pra conversar.
- Eu não sou sua terapeuta. Ah, chama sua mãe.
- Menina má, eu sendo tão educado e você me tratando assim.
De repente, ele agarrou-me e pôs em frente ao meu nariz um pano com um cheiro muito forte, na certa era para eu desmaiar, mas, juro que não sei porquê, não funcionou. Eu apenas fingi que tinha sido eficaz e caí em seus braços. Ele me levou até um táxi.
- Meu bem, quem mandou você beber tanto? - Fingia falar comigo e me apoiava em pé com um braço meu em seu ombro, como quem está quase caindo de sono. - Boa noite, motorista. Por favor, leve-nos a esse endereço.- Entregou um papel ao taxista e o carro partiu.
Quando ele tentou me reanimar com outro cheiro forte, e novamente eu fingi reagir, estávamos em um apartamento.
- Qual é seu nome? - Perguntei.
- Bom... você pode me chamar de Ben.

- Esperava algo melhor, juro.
- Eu não escolhi meu nome, querida.
- Ah tá, como se eu acreditasse que esse é seu nome verdadeiro.
- É sim, acredite ou não.
Conversamos bastante durante a noite. Eu fingia que apesar do medo estava tentando ser simpática. E, inacreditavelmente, ele me falou de mim. Mas não da personagem, de mim mesmo, de mim mesma. Nícole Green, a professora de criança da pequena escola primária do meu bairro. Juro que ele realmente não sabia que era eu ali, à sua frente.
- Eu a observava muito, antes. Ela costuma ter hábitos parecidos com os meus... é ... Mas eu resolvi esquecer, cuidar da minha vida. Ela é diabólica. Só que eu quis chamar sua atenção, não consegui esquecê-la, nos estudamos juntos, sabe... e fiz umas coisas que acho que a deixaram puta comigo, e ela apareceu. - Chegamos nesse assunto depois de sua quarta ou quinta taça de vinho, eu estava bem amarrada em uma cadeira. - Mas eu hesitei por um tempo, e agora ela sumiu. Soube que viajou, sei lá. Não sei bem o porquê de me sentir atraído por ela. Não que ela não seja atraente, é bastante. Por isso eu te trouxe aqui, você me faz lembrar a Nick. Da vezes que nos vimos ela não me reconheceu, nós transamos e nossa! Foi fantástico, mas eu não queria ser muito idiota e tinha que salvar minha vida, é você não vai entender... Então eu fui embora. E ela me odiou e odeia, eu acho. Mas porque eu estou te falando isso? Sou forte, cara, sou forte...
Daí ele caiu num sono.
- Ei, ei! Por favor pode acordar e me deixar ir embora?- Mas ele não acordou e eu não pude dormir, vai que ele acordava antes e tirava minha peruca...
Depois de umas horas, ele levantou e eu fingi que olhava pro nada, só esperando ele acordar.
- Quem é você?- Ele perguntou.
Eu pensei em mentir, e mentiria muito bem. Sairia dali sã e salva, mas meu instinto respondeu por mim e as seguintes palavras saíram da minha boca automaticamente:
- Nícole Green. Aqui, à sua frente.
- O que? Você está drogada? Quer brincar comigo é? É sua fantasia? - Daí, antes que pudesse responder ele me amordaçou, me desamarrou e me jogou na cama.
Era forte, e eu também. Eu poderia mostrar isso para ele ter certeza de quem eu era, porém se eu tinha a força de três mulheres, ele tinha a de três homens.
- Você é bem safada! Dizendo que não queria nada, mas agora pedindo pr'eu comer você. E ainda que fazer teatrinho. Quer que eu te chame de Nick, também? Você vai ser minha boneca inflável.
Em um minuto eu estava nua e ele estava dentro de mim. Não procurei mais resistir, me entreguei. E foi muito bom, o fato de ele me chamar pelo meu nome me soava tão bom.
Depois ele tirou minha mordaça. Estávamos nus, deitados.
- Eu que devia ter te comido quando tive a chance. Como você diz que pensa tanto em mim e não me reconhece?
- Você ainda quer brincar de Nick? Ei, como você sabe que ela ia me c...? Nícole, é mesmo você! Como não te reconheci. Eu andava vendo você em todas as mulheres, achei que fossem as drogas...
- Porque você tentou me foder? Se a polícia batesse à minha porta?
- Você é esperta o bastante.
- Você é agradável, poderia ter me procurado antes.
- Você duvidaria de mim, eu não quero que te peguem.
- E agora? Já está saindo nos jornais sobre os sumiços.
- Nós podemos ir embora daqui.
- Nós? Não há nós. E eu tenho toda uma vida aqui.
- Ah, sim, há NÓS. Caso contrário, você ficará em maus lençóis. Eu sou agradável, Nick. Pense assim.
- Você é atraente também.
- É, isso... entre no jogo.
- Você quer me comer?
- E não foi o que acabei de fazer? - Ele riu.
- Idiota! Você quer me jantar?
- Não, eu quero te preservar. Você quer me jantar?
- Não, eu gosto de transar com você.

Acendi um cigarro que dividimos e depois saímos. Acho que aquilo tudo deu fome.

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